Tudo aconteceu na casa do Rogério, meu melhor amigo – Final
Fiquei observando Roberto no banco da praça pela janela por quase dois cigarros inteiros, até que ele, enfim, entrou no carro e saiu. O peso de toda aquela situação começou a me incomodar, “por que a gente não casa de uma vez e adota um casal de calopsitas?” me peguei pensando, antes de concluir o absurdo da situação.
Éramos jovens, não tínhamos estabilidade alguma, não tínhamos casa, não tínhamos sequer um relacionamento, éramos dois homens e eu nem sabia ao certo se eu era efetivamente gay, mas meus sentimentos teimavam em buscar, não uma fuga, mas sim uma solução, e aparentemente, minha razão era mais madura que meu coração ao martelar “você ‘tá louco” a cada nova ideia.
À tardezinha resolvi espairecer, e saí de casa para fumar, havia algumas semanas que adquirira o vício. Atravessei a rua e caminhei três passos na praça e então vi Roberto caminhando para o banco, novamente o mesmo que havia sentado horas antes, pouco à minha frente.
Titubiei por alguns segundos e resolvi parar. Não sabia se queria enfrentar um drama, se era algo a conversar, afinal, ele, mesmo, não havia me dito coisa alguma, talvez fossem apenas conjecturas e fofocas, mas diabo de sensação estranha que parecia saudade com um pouco de vontade.
Durante esse processamento mental, Roberto me viu. Ele sorriu e fitou-me quase 3 segundos inteiros, o tempo de uma vida. Tive que tomar uma atitude, pois começava a ficar estranho. Caminhei até ele e sentei a seu lado, ambos com nossos respectivos cigarros.
Nos entreolhamos, Roberto sorriu:” Você fuma agora? É? É minha má influência?”
Acenei com a cabeça negativamente, tentando evitar trocas de olhares.
Nesse momento achei engraçado o ridículo da situação! Roberto já havia me visto pelado nas mais diversas situações, já havíamos conversado sobre mil coisas, de escatologias aos vislumbres (improváveis) do futuro. O que, afinal, havia mudado e me dado esse constrangimento.
Sorri e balancei a cabeça, olhando para o chão, inconformado. Não havia me atrevido a olhar para Roberto, mas estava decidido a fazê-lo, quando ele tomou a iniciativa:
“Binho, quer ir num lugar mais reservado?”
“Quero” Respondi. “Só não ‘tou a fim de transar contigo agora”
Ele franziu as sobrancelhas, esboçou um sorriso frouxo, chacoalhou a cabeça e levantou os ombros, como que perguntando por que da súbita falta de libido. Levantei com as mãos no bolso e o cigarro aceso nos lábios e sinalizei com a cabeça para que ele me acompanhasse.
Enquanto andávamos, eu ainda olhava para o chão, ainda tomando coragem. Caminhamos uns 30 metros sem palavras, então consegui reunir forças para falar algo:
“Beto, eu ‘tou com medo… Confuso” Disse, sem saber ao certo qual palavra escolher.
“Medo de quê?”
“Medo do que tu sente por mim”
Roberto sorriu, com as mãos no bolso, me empurrou com o ombro de leve.
“Não te esquenta, Binho! É bobeira minha, eu me viro, nem te esquenta mesmo! Mas meu irmão tá fodido quando eu voltar pra casa… Dedo duro desgraçado!”
Essa era a deixa para eu sorrir e descontrair.
Não funcionou!
“Mas também ‘tou com medo disso que eu sinto também, né…” respondi.
Houveram segundos seculares de silêncio, então Roberto sentou num banco, colocando uma perna de cada lado. Sentei na frente dele, com ambas as pernas voltadas para a grama, não para o caminho, para o jardim.
“Binho… Olha só… Vai pra São Paulo se é o que tu quer! E tu queria tanto trabalhar em avião, essas coisas… Tu sempre falou disso, desde piázinho, desde que te conheço, e te conheço há muitos anos. Vai ser mais fácil pra nós dois, e isso tudo, uma hora, vai passar!”
Acenei afirmativamente, sem poder ainda olhar para ele diretamente (mas era certo que conseguiria… pelo menos queria crer que fosse).
Roberto, mais uma vez, tomou a dianteira. Ele segurou meu rosto com as duas mãos, como fizera de manhã, torcendo seu corpo para posicionar nossos rostos frente a frente. Encostou a ponta de seu nariz na ponta do meu nariz então sua testa na minha testa (que já havíamos definido meses atrás, sem falar uma palavra, que seria assim que falaríamos sério um com o outro).
“Pára de ser bobo, vai fazer tuas coisas, e gente ‘tava curtindo até agora, vamos curtir até quando der, ‘tá certo?”
Não pude responder, estava confuso, então me assustei com o som de passos. Um casal idoso andava pelo passeio a alguns metros de nós. Tentei me desvencilhar de Roberto, mas ele me puxou suavemente, retomando a posição.
“’Tou te amando o suficiente pra te deixar ir embora, ‘tá certo? Faz o mesmo!”
Docemente ele beijou-me os lábios, um beijo suave, amoroso, sem a intensidade da força, mas com a intensidade de um sentimento recente e ferido, até então desconhecido para mim. Beijou-me no exato momento que o casal passava por nós.
A senhorinha, bem idosa mesmo, vestida de roupas austeras, nos olhou fixamente. Pelas beiradas dos meus olhos pude vê-la, já esperava algum comentário maldoso. Mas não dei importância. Nesta hora, sentia-me renascido, assumido, inteiro e reto.
A senhora cutucou seu companheiro e sorriu! Ambos deram mais alguns passos e comentou com o senhor de terno claro que a acompanhava “Não importa, né, meu bem? Sempre é bonito!”
Quando o simpático casal tomou distancia, percebi que escorria uma lágrima do olho esquerdo de Roberto. Os últimos raios de sol e a brisa fria e suave que vinha do Guaíba (*Rio que contorna Porto Alegre) coloriam de uma luz dourada a pele de Roberto e o brilho úmido dos seus olhos. Sequei-lhe as lágrimas e o olhei por alguns segundos, e meus sentimentos intensificavam-se. Agora sentia-me também liberto de tudo, como se estivesse nu, mas sem vergonha de minha situação e absolutamente tranquilo. Sabia que ele tinha razão, sabia que iria passar, mas era importante o que eu sentia naquele momento.
“Não chora mais, sua bichona!” Falei, sorrindo.
“Só um pouco agora, tá? depois não choro mais” disse ele, abaixando a cabeça.
Beijei-lhe sobre as pálpebras do olho direito e o abracei. Ele apoiou a cabeça no meu peito e me abraçou forte, segurando o seu pulso com uma das mãos e fazendo alguma pressão, como que com algum desespero e alguma revolta, envolvendo-me com seus braços incrivelmente fortes e forçando sua cabeça no meu peito, como se quisesse se misturar a mim. Chorava quieto, assustado. Sabia que chorava apesar de não esboçar qualquer sintoma, por que senti algumas lágrimas caírem na minha coxa. Aquele homem gigante, seis anos mais velho, agora parecia uma criança, e eu, apesar de também não saber muito bem como não chorar também, afaguei seus cabelos e o consolei.
“Bobão…”
Depois de alguns minutos estava tudo completamente escuro, poucas lâmpadas da praça funcionavam. A escuridão era um manto bem vindo neste momento, assim como o frio, que segurava as inconvenientes companhias trancadas em suas casas.
Roberto colocou as mãos nos bolsos e levantou. Segurei-lhe um dos braços e puxei para fora do bolso. Segurei-lhe, enganchando nossos dedos indicadores, e andamos assim, enganchados, por alguns minutos.
Naqueles dias, não sabia o que exatamente seria um relacionamento, não compreendia os protocolos impostos pela sociedade, agia por puro instinto, não me parecia fazer nada de tão errado, afinal, a velhinha falou que era bonito!
Encontramos, por fim, alguns arbustos interessantes que ocultavam outro banquinho convidativo. Roberto tomou a frente e me sentou no banco. Abriu o botão da minha bermuda e começou a me massagear minha pélvis. A luz tênue das estrelas e da lua tingia-nos de prateado. Senti os lábios macios de Roberto deslizarem pela pele da minha barriga na direção do meu sexo.
“Olha… ele está beijando meu pau de língua” pensei. Sabia a teoria da coisa, mas na prática, era bem melhor do que eu imagina! Já havia sido chupado algumas vezes, por garotas safadinhas nos intervalos das aulas ou em festinhas da turma, mas isso definitivamente era diferente.
Senti que gozaria imediatamente, mas a sensação que precede o êxtase perdurava infinitamente, sem que eu precisasse sequer segurá-la ou controlá-la. Sentia tanto prazer que as mãos de Roberto que passavam por dentro da minha roupa e acariciavam minhas costas e bunda pareciam me queimar sem ardor, só calor.
Ouvia sua respiração, era pesada, mas não parecia ofegante. Era lenta e intensa. Abaixou minhas calças e sentou-me no seu colo, encaixando-me nele com perfeição. Não conseguia pensar, nem queria! Parecia inconsciente, com ondas de calafrios que passavam por nossos corpos a cada sopro gentil da lua que nos guardava.
Cada estocada suave era ritmada com a maestria do canto de uma ave, cada contorção de prazer de um, coreografava com as carícias do outro, era simplesmente perfeito, preciso, exato. É, até hoje, o que entendo por fazer amor.
Roberto parou do nada. Não entendi o que se passava e me desvencilhei dele, sentando-me a sua frente. Ele me segurou pela cintura e me colocou um pouco mais distante, mais para a ponta do banco. Então abaixou suas calças e soltou-a de um dos pés, deitou-se de costas no banco e dobrou as pernas, apoiando apenas os calcanhares nas beiradas do banco. Me olhou sorrindo e disse “Vem”
Normalmente ficaria nervoso, já havia pensado em propor uma “mudança de paradigma”, mas não titubiei, nem na camisinha, coisa que tenho sempre em mente e não abro mão. Foi a primeira e a ultima vez que fiz isso (sem uma bateria de seis meses de exames mútuos nas mãos!).
Encaixei-me nele e penetrei-o aos poucos. Roberto estava tenso e era difícil penetrar-lhe. Suas feições de dor eram permeadas de imensos suspiros contidos prazer, e quando finalmente consegui o invadir, comecei lentamente a acelerar meus movimentos, não ouvi nenhuma reclamação por parte dele, manteve-se mais quieto, explorando aquele prazer.
As batidas do meu corpo contra o dele eram intensas e suaves ao mesmo tempo, difícil explicar, Roberto não se conteve por muito tempo, parecia não sabir o que fazer, alucinava delirante e ofegava alto, então agarrou com as mãos nas bordas de concreto do banco e levantou o corpo, deixando a cabeça pender para trás, pouco depois senti seus jatos no meu peito, acompanhadas de fortes contrações no meu corpo, que respondeu imediatamente, inundando-o com meu sêmen.
A situação foi literalmente delirante, por uma fração de segundos senti minhas vistas escurecerem e minha cabeça tontear, agarrei-lhe pelas coxas, cravando as unhas em sua pele, dentre seus pelos, e o puxei para mim, compreendendo, enfim, a sensação de querem misturar meu corpo com o dele.
Ficamos parados alguns segundos, tentando recobrar a consciência, então ele ergueu seu corpo e sentou-se na minha frente, enquanto arrumávamos nossas roupas.
Ele puxou-me pelos ombros e me beijou, o senti relaxar, enfim, assim como eu, e nos envolvemos num abraço lânguido, ainda enquanto nos beijávamos.
Caminhamos de volta para nossas casas às voltas, enganchados pelos dedos novamente, conversando sobre coisas que pareciam desconexas. O céu, tão limpo, o futuro, estudos, a avó dele, meu cachorro… Quando chegamos na beirada da calçada, vimos nossas casas acesas, fervilhantes e aquecidas, era um retorno ao mundo real um tanto abrupto.
Roberto me olhou, segurou minha mão inteira com suas duas mãos e me beijou na têmpora. “Até amanhã, Guri”
“Até amanhã!” Respondi.
Fiquei parado enquanto olhava Roberto atravessar a rua com um sentimento vazio e azul em mim. As pequenas folhas dos Flamboyant vermelhos que voavam com o vento pareciam chorar as nossas dores enquanto Roberto dava-me um último aceno antes de entrar em casa.
Antes de atravessar a rua para ir para a minha casa, percebi Rogério, meu amigo, na Janela. Ele sorriu para mim e apontou o polegar para cima, como que perguntando “Tá tudo bem?”
Levantei o polegar e o movi para cima e para baixo, como quem diz “mais ou menos”.
Rogério sorriu de novo, fechou o punho e flexionou o braço, como que dizendo “Força” e piscou exageradamente com um dos olhos, para que eu, a distância, mesmo míope, pudesse ver.
Sorri em agradecimento, acenei e fui para casa.
Nos dias que seguiram, ainda nos encontramos algumas vezes.
Quando o mês terminou, ambos deveríamos seguir com nossas vidas, ele em Itajaí, Santa Catarina, eu em São Paulo.
Fui para a rodoviária sozinho, tinha dito aos meus pais que não queria mais essa despedida, já havia feito despedidas e despedidas a semana anterior inteira, queria me desprender de tantas dores e recomeçar o mais “limpo” possível essa nova vida que se abria diante dos meus olhos.
Rogério me ajudou a colocar as malas no taxi e me abraçou com força, a força típica da família. Enquanto abraçava, me confiou ao pé do ouvido: “O Beto foi embora também”.
“Eu sei…” respondi o apertando mais, “e nem pude me despedir de novo”, pensei.
Entrei no taxi e segui sob a benção dos acenos daqueles que me amavam.
Chegando na rodoviária, logo fui para o ônibus, que não tardaria a sair. Sentei na última poltrona quieto, na verdade estava apavorado e confiante. A noite caía gelada, então desci para pedir se ainda poderia acessar minha mala para pegar uma blusa. Assim que vesti a blusa, vejo Roberto andando na plataforma, alguns metros a minha frente, olhando para os lados com agilidade carregando uma enorme mochila.
Quando nossos olhos se cruzaram, sorri, confesso, bem feliz e surpreso. Roberto sorriu timidamente, andou até mim e me abraçou. Beijou-me as têmporas sem soltar seus braços de mim.
“Vai com Deus, meu Binho” disse, me abraçando forte
Apenas afirmei com a cabeça no ombro dele, o soltei e vi com os olhos cheios, mais uma vez sob a luz morna do poente. Ele se virou e afastou-se de mim, o vi ir embora mais uma vez.
Foi a última vez que o vi.




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